Identidade

Você é livre. Você pode escolher suas amizades, com quem vai se relacionar. Você pode ser solteiro.    Você pode casar. Você pode andar de carro ou optar pelas bicicletas. Mas você também pode não gostar de carros, nem de bicicletas e não pode optar por não saber pilotar nenhum dos dois.
Você pode dizer “bom dia” para qualquer pessoa  que encontrar pelo caminho. Você também pode não dizer nada.
Você pode estar antenado com a moda, mas também pode usar aquela roupa que você comprou há dez anos.
Você pode gostar de samba, rock, forró e jazz. Você pode gostar só de jazz. Você pode amar dançar de parzinho e não ser muito fã de dançar sozinho.
Você pode gostar de pizza sem muçarela.  Você não precisa gostar de cerveja, nem de vinho. Pode tomar café descafeinado. Tapioca no lugar de pão francês? Só se você quiser!
Você pode gostar de ir ao cinema, mas pode gostar mais ainda de ver filme em casa, debaixo do seu cobertor quentinho.
Você pode adorar o almoço de domingo na casa da sua avó, mas também pode querer mudar a rota de vez em quando.
Missa? Você pode escolher o horário no domingo.
Você pode acordar tarde quando não precisar trabalhar. Pode ir caminhar pela manhã, pela noite ou pode optar por não caminhar. Ser fitness? Você quer? Não é obrigado!
Você pode viajar pra praia todo ano. Pode também ir para a Europa, Hotel Fazenda ou pro sítio do amigo. Mas você pode preferir ficar em casa os 365 dias do ano.
Não precisa tingir e alisar o cabelo, fazer as unhas ou aparar a barba. Só se quiser!
Você pode se preocupar só com a sua vida e não julgar as pessoas. Pode! Não precisa colocar mais maldade no mundo.
Você pode ter filhos. Pode adotar uma criança de sete anos ou um recém-nascido. Porém, pode se satisfazer com os sobrinhos  ou com os cachorros.
Você não é obrigado a ser aprovado no vestibular de primeira. Mas aconselho que você estude e amplie seus conhecimentos.
Você pode ser amigo de pessoas mais velhas ou mais novas que você. Se te fazem bem, por que não?
Você pode dormir de meias no verão ou nunca dormir de meias.
Você pode adorar estórias em quadrinhos, Clarice Lispector, vídeo cassetadas e pegadinhas do domingo. Mas, você pode não gostar de ler e nem de assistir TV.
Você pode achar esse texto ridículo, apesar de ter lido até o final. Pode!
Você não é obrigado a nada!

Raquel de Castro Ribeiro

Bagagem


No mês de maio, embarquei junto com minha família para uma viagem à Fortaleza, no Ceará. Talvez nunca estivemos com tanta vontade de compartilhar momentos desde a nossa primeira viagem nesse ano, para comemorar o aniversário da minha mãe.
É incrível o que as viagens fazem com a gente! Você pode levar a maior mala do mundo que jamais ela caberá toda a bagagem na volta. Isso porque além das lembrancinhas das feiras de artesanato, dos quitutes regionais, você pode trazer o mar, a sensação de pisar na areia, a brisa batendo no seu rosto, centenas de pessoas que você nunca havia visto antes, a sensação de liberdade de andar de buggy nas areias. É impossível não voltar carregada de energia positiva. É impossível também não ficar curioso com as estórias que se cruzam nos aeroportos.
Viajar é se deixar ser invadido pelo mundo! É despir a alma para novas experiências. Nada é mais terapêutico do que viajar. Muitas vezes as pessoas viajam para se envolver nessa terapia fora da rotina para colocar as ideias no lugar. Se a intenção é essa, funciona! A gente sempre volta diferente do que fomos de uma viagem.
Fortaleza é o destino brasileiro mais longe que fui de Lagoa da Prata. Eu estava lá nos dias que mais notícias “bombas” sobre a política no Brasil estouravam. Dinheiro sujo que mais uma vez passavam pela lava jato.  Quantias de reais que parecem fantasias. Políticos eleitos por gente humilde, trabalhadora e que confiou em promessas vazias. Gente que tem tão pouco que fazer filhos para ganhar o benefício da Bolsa Família é considerado negócio lucrativo.
Visitando o nordeste, além de depararmos com as maravilhas da natureza, nos deparamos com crianças disputando resto de comida dos outros em restaurantes. Vemos crianças de dez anos vendendo balas às vinte e duas horas. Uma ainda me contou que não tem pai e que ele é quem sustenta a casa enquanto a mãe cuida dos filhos menores. Estuda de sete às onze horas e começa a trabalhar ao meio dia. O trabalho infantil é descarado no nordeste. Sei que também encontramos com ele por aqui. Mas lá, é quase uma regra. Enquanto discutem a reforma da previdência e não fazem nada por essas crianças, deveriam ao menos contabilizar o seu tempo de serviço! É ridículo, eu sei!
Essa é a parte triste da viagem. Não pode ser ruim porque sempre aprendo com essas vivências. Precisamos sempre agradecer as oportunidades que temos, seja a de conhecer o famoso Beach Park ou a oportunidade de ver como vivem os cearenses menos favorecidos.
Fato é que não se pode ter paz vendo criança jogada na rua, sendo arrimo de família e se alimentando de restos.
Na minha bagagem, trouxe tudo isso! E também trouxe aquela sensação de leveza que se tem quando você está em família.
Em cada viagem, seja ela fora ou dentro de mim, tenho mais certeza de que sou de carne e osso: humana!  Amo viajar. Amo ser só uma turista no meio da multidão, que me livra dos julgamentos rotineiros. Amo me dar à oportunidade de relaxar. Amo o concreto e o abstrato que trago na volta. Minha sugestão é que você viaje. Seja nas palavras dessa crônica, seja na música que você gosta, seja de carro ou de avião. Viaje e amplie a sua bagagem!
                                                                                                          
                                                                                                                            Raquel  Ribeiro


Estranhamente bem


Encontros e reencontros sempre vêm acompanhados de abraços, às vezes apertos de mão, às vezes de um beijo. Certo mesmo é sempre escutar a pergunta clássica: “Como você está?”. A minha resposta nos últimos tempos tem sido: “Estranhamente bem!” 
As pessoas, ao escutarem minha resposta nada convencional, me olham assustadas e me perguntam curiosas o que quero dizer com isso. 
Segue minha resposta:
Estranhamente bem é o estado máximo de bem estar que eu consegui atingir nos últimos dois anos e meio da minha vida. Nos últimos tempos, passei por transformações e momentos tão tristes que eu havia me esquecido completamente como era se sentir bem, em paz, livre, leve, solta e amada. É redescobrir seu amor próprio. É dançar balé na sala de pijama. É se sentir o ser mais importante do mundo quando o seu cachorro faz festa só porque você chegou em casa. É sorrir para as orquídeas. É fazer uma omelete, ela não se quebrar e por isso se achar a estrela da culinária. É receber os amigos em casa e serví-los com um belo prato preparado por você com amor e carinho. É comprar uma máquina de lavar e ficar radiante quando faz ela funcionar pela primeira vez igual a uma criança quando ganha um brinquedo. É perceber que sua família te adora e sempre vai estar ao seu lado. É sentir tranquilidade por ter tentado todas as possibilidades e sair leve de situações que não dependiam só de você para dar certo.É gostar dos seus próprios escritos. É descobrir que cozinhar também é uma forma de escrever. É voltar a ter criatividade. É entender que o tempo passa e que não podemos prorrogar os momentos felizes e nem os tristes. É amar a leitura, compreendendo que ela só nos acrescenta. É estar sempre aberto para o conhecimento. É cantar sua música preferida no chuveiro e achar que já pode se candidatar no TheVoice Brasil. É sentir o cheiro de amaciante nas roupas e achar esse o melhor perfume do mundo. É escutar samba enquanto faz almoço. É se reconhecer responsável pelas suas escolhas. É dar e receber “Bom dia!” de quem você nem conhece. É entender que seus pais se esforçaram para que você tenha uma vida digna, repleta de amor e respeito. É ganhar rosquinhas da sua aluna na hora exata que você sonhava em comer uma delícia dessas. É como saborear uma bola de sorvete de doce de leite e descobrir que esse é seu sabor preferido, após anos convencida que o sorvete de flocos era o melhor.É ter orgulho de você, da sua coragem, de escolher novos caminhos e acreditar que o que vem pela frente, mesmo sem ainda conhecer, será muito melhor. É ter fé!”
Todas essas situações e sentimentos bons acabaram de entrar na minha vida e acredito que por isso, no momento ainda são estranhos. É (quase) tudo uma novidade. Uma linda novidade!
Se sentir estranhamente bem é maravilhoso!
Mas e você, como está?

Raquel Ribeiro

Há esperança no mundo


   Há alguns anos atrás, eu morava em Belo Horizonte e cursava Enfermagem no Centro Universitário Izabela Hendrix. Era um sobe e desce morro e uma vida regada de leite e bolacha. A melhor hora do dia era o almoço. Ia em um restaurante na esquina do meu prédio e todos os dias eu me dava o direito de tomar um suco de laranja. Papai patrocinava meus estudos, minha moradia, minha alimentação, meus livros, meu xerox, minhas idas e vindas para Lagoa da Prata para visitar a família. É válido dizer que essa já era minha segunda graduação e que a minha única renda era da monitoria que eu dava na faculdade.
   Belo Horizonte é uma cidade de muitos rostos, muitos carros, muito movimento, muitas possiblidades, muito vai e vem. Mas sempre achei que faltam sorrisos, “bom dias”, entregas de almas. Conheci muita gente, algumas ainda mantenho contato. Porém, na minha lembrança, com frequência, vem à imagem de um senhor que eu sequer sei o nome e se ainda está vivo. Ele trabalhava com seu carrinho de pipocas na esquina do Centro Universitário, ali na  Rua da Bahia com Bias Fortes. Ele devia ter mais de 60, 70 anos talvez. Eu indo ou vindo ele sempre me dirigia um sorriso, um bom dia, perguntava como eu estava, como tinha sido o meu dia. No seu carrinho além das pipocas, tinha amêndoas carameladas e vários tipos de doces.  Meu dinheirinho era contado e, como já disse, a única gracinha que eu me permitia diariamente era tomar um suco de laranja, eu raramente comprava alguma guloseima desse senhor. Nem por isso ele deixou de me tratar com gentileza quando cruzávamos os nosso caminhos. 
   Desde que me entendo por gente, tenho um apreço por esses “vendedores de infância”. Os pipoqueiros, os vendedores de algodão doce, os vendedores de balas no trânsito, pelo rapaz que vende trufas de bar em bar na noite de nossa cidade (diga-se de passagem, ele já foi meu aluno). São pessoas que me trazem um sentimento bom, uma alegria na alma, uma esperança na humanidade. A gente escuta muito aquela história que o cheiro da pipoca é melhor que comer pipoca. Acredito que porque todas essas delícias trazem muito mais que sabor. São muito mais que um simples gosto doce ou salgado. Elas nos dão a chance de fazer uma ligação direta com nossos tempos de criança sem nem a gente comer a pipoca e só sentido o aroma.
   Outro dia mesmo, passeando com uma amiga sábado de manhã na Praça da Matriz, tinha um casal de pipoqueiros. Fui abduzida pelo cheiro e caminhei até eles. Eu estava completamente desprevenida, com só uma moeda de um real no bolso. Então, perguntei ao casal o valor do saquinho de pipocas. Respondendo que eram dois reais, eu perguntei se eles me vendiam meio. Eles disseram que sim, mas que me venderiam um saquinho cheio pelo o que eu tivesse para pagar. Achei de uma bondade! Fiquei tão surpresa com aquele gesto. Eles me entregaram a pipoca numa cara de satisfação de dar gosto! Confesso que fiquei constrangida com a situação e logo depois voltei com mais dinheiro para pagar e eles não aceitaram. O que me deixou com mais vergonha ainda! Hoje em dia é tão raro um ato de gentileza, que quando a gente recebe ficamos assim, constrangidos. Como se fosse ilícito dar ou receber delicadezas!
   Depois desse dia tive a certeza que os pipoqueiros e outros vendedores de guloseimas, se disfarçam de vendedores para nos trazer um pouco de boas lembranças, de alegria, de paz, de amor. Enquanto eles existirem, há de se ter esperança no mundo!
Se você ler esse texto e passar na esquina do Izabela Hendrix em BH, por favor, repare se o senhor ainda está lá com seu carrinho e não deixe de me contar.
Carinhosamente, 
Raquel Ribeiro.

Não me perca à vista


Um dia desses, um amigo me perguntou o que eu queria ser. E eu respondi que eu queria continuar desenvolvendo meu trabalho. Não satisfeito com minha resposta ele repetiu a pergunta enfaticamente: “Raquel, o que você quer ser?”. Então no meio tempo entre a pergunta e a resposta, lembrei-me da minha sobrinha de seis anos, que estuda numa das melhores escolas de São Paulo, me confessando que sonhava em ser cabeleireira. Logo, da confissão inocente de uma criança, veio a minha resposta ao meu amigo: “Quero ser escritora!”. E ele, um carinha persistente me perguntou o que estava fazendo para que isso acontecesse. Eu diante, de tanta insistência, o contei que escrevia num blog.
Naquele momento, porém, não tive coragem de dizê-lo que não publicava um texto há mais de três anos. Nem no blog e nem aqui, no jornal a qual retorno agora. Então, incomoda pela pergunta dirigida a mim por esse filho de Deus e encorajada pela fala da minha antiga leitora Dirce, funcionária da escola particular em que eu cursei o Ensino Médio e que um dia me disse que gostava dos meus textos, publicados aqui, cá está, no estilo “filho pródigo”.
Sem vergonha de dizer, somente aos trinta e dois anos de idade, acredito que começo a entender a cura da cegueira nos contada na Bíblia Sagrada além da questão física.
Nos últimos tempos, após alguns encontros psicanalíticos, comecei a ter visão do quanto realmente conseguimos enxergar ou o quanto nos permitimos. As últimas notícias do jornal só falavam do voo da Chapecoense. Enquanto se falava das possíveis causas do acidente, de comentários inúteis e mesquinhos como: “Essa manchete toda é só porque são jogadores de futebol!”, eu tentava desviar do assunto. Logo os corpos chegaram a Chapecó, sob uma tempestade digna do tamanho da tragédia, eu passava pela sala de TV enquanto meu amigo. assistia a transmissão diretamente da Arena Condá. Naqueles cinco segundos em que passei por ali, fui acometida pela cena que revelou porque eu fugia daquele “Papo Chapecó”. Era um menino, que deve ter uns dez anos, uniformizado de esperança, debruçado sobre o caixão do pai. Recordei-me instantaneamente do velório do meu pai, em que eu também posta de bruços sobre a sua ausência, sentia todo o peso do mundo em minhas costas ao mesmo tempo em que não sentia meus pés no chão. Aquele, então foi meu ponto de encontro com aquela tragédia, o momento em que me permiti enxergar um pouco mais. Nos dias seguintes, fui abatida por uma sensação desesperadora regada a lágrimas e soluços, pela presença da ausência do meu pai e, por pensamentos recorrentes que aquele garoto, no auge da sua inocência, se encontrava agora comigo.
Continuando ainda sobre a cegueira, me lembro de um ex-aluno, que deve ter hoje a mesma idade do garoto Chapecoense,que no primeiro dia de aula de uma escola que já lecionei, interrompeu a minha dinâmica de apresentação, saindo do seu lugar e indo até o meu encontro, para me dizer bem baixinho: “Tia, minha mãe morreu.”  E eu o respondi, da mesma forma: “ O meu pai também.” Desde então, nunca mais nos perdemos de vista.
O que peço a Deus, caro leitor, é que Deus nos ajude a enxergar.  Permitir-nos ver o outro, encontrá-lo e assim descortinar a nós mesmos. Sem julgamentos. Sendo gente. Permitindo-nos ser gente.
Termino com José Saramago, citando um trecho da sua obra: “È necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não nos saímos de nós.”

Carinhosamente, Raquel Ribeiro.

O TEMPO QUE NÃO CABIA NO TEMPO


Queria saber sobre as coisas que não passam. Queria saber porque nem tudo acompanhava o tic-tac do relógio. E, ainda, porque éramos todos tão apegados aos números que, supostamente, definiam o tempo. Era só uma menina que queria saber mais. Saber mais sobre o mundo.  Não entendia porque o ontem tinha cara de ano passado. Não entendia o porquê do anteontem ter cara de momento exato. E foi então que, numa das suas viagens mirabolantes na sua sala de cinema preferida, que ela começou a entender o calendário. O homem é um ser espertinho e que adora números, mas que tem a terrível mania de querer controlar tudo. Foi daí que nasceu o tic-tac. O espertinho queria que tudo passasse. Que nome devia se dar para o que o relógio não controla? Não sabia o que era. Só sabia que não era esquecimento. Seria a magia do tempo? A magia das coisas que não passam. Era o tempo que não tinha medida e não podia ser contado. Só podia ser sentido. Nem sempre era saudade. Às vezes, era um sentimento doído, que os ponteiros, também se esqueceram de levar. Às vezes aquele sentimento tinha gosto de pé-de-moleque e cheiro de bolo saindo do forno. O tempo que não passa era como filme na sessão da tarde. Quantas reprises? O tempo que não passa era o álbum de fotografia que tem toque. Era a fotografia que saia do papel e dançava valsa ou hip hop. Acendia aquela fogueira no peito. Relógio sem ponteiros. Tic sem tac. Passado repassado. Terra do Nunca. Khorons e Kairós. E quando se vê, já é meio dia. Mas nada era meia vida. Vida revivida, concluiu a menina.

Raquel Ribeiro

(NÃO É) INVERNO



Saio de casa e encontro o sol. Uma claridade tão forte que mal consigo abrir os olhos. Faz calor. É estranho. Aqui dentro neva e o inverno parece ter se alojado no meu peito. Não quer ir embora. Faz frio. Volto pra casa. Não temos lareira em casa. Ou temos? Temos. Dizem que o inverno é chique. Tudo é muito mais glamoroso que nas  outras vidas do ano. Quando faz frio a alma fica mais glamorosa, entende? Tudo vem daqui e esse é o único lado bom das baixas temperaturas. Para aquecer, me perco na literatura e viajo pelas quatro estações. Agora sinto uma brisa suave, acariciando meu rosto. Tudo começa a ter gosto de chocolate quente. É inverno, mas agora faz frio lá fora. Só lá. Minha alma vive em plena primavera. O inverno foi bem curto. Tão curto quanto esse texto. É primavera. E aqui dentro tudo tem muita cor. Tem gosto bom, tem toque bom, tem cheiro bom. Primavera...

Raquel Ribeiro


Minha amiga de infância, Vanessa Vasconcelos, que tem uma  alma tão contagiante que nos toca, me pediu para escrever sobre o inverno. Logo ela, que é calor, que é cor, entende?! Uma amiga que é primavera, que é verão.  O inverno que nunca é pra você, amiga. O texto é pra você! Metáforas, contradições...

SAIA DO BREU


Basta nossas expectativas não serem correspondidas que logo já tomamos pela mão a desilusão. Mas desilusão é uma palavra um tanto engraçada. Sei que não tem nada de engraçado em perder a graça com a vida e deixar de sonhar. Mas um dos significados que o glorioso Aurélio dá a ilusão é “engano dos sentidos ou da mente”. Então desilusão nada mais é que a realidade, que nem sempre é muito saborosa. É se apegar em fatos e deixar de viver no país de Alice. É abrir mão do sonho que já pode ter se tornado pesadelo. É palavra que não faz parte discurso amoroso. Acabou a energia e não se consegue ver a luz no fim do túnel. Faz frio e a alma vive em pleno inverno, mesmo que esteja em janeiro. A desilusão não sabe o que é calendário e não respeita nem o dia de aniversário. Às vezes, dura minutos, às vezes pode durar para sempre. Mas uma coisa é certa: não fiquemos tristes porque ela resolveu brincar de ciranda com a gente. A desilusão, por mais dor que possa trazer, é amiga da verdade. E é a verdade quem nos liberta, sempre! Faça uma fogueira. Saia do breu. Aqueça a alma. 

Raquel Ribeiro

* Texto escrito e dedicado para minha querida amiga Natty Mansur, que me sugeriu escrever sobre esse tema. Aqueça a alma, Natty. Aqueça a alma!

Imagem: Weheartit

CICLO ENCERRADO



Chega o fim de uma jornada de quase uma década de estudos. Agradeço a Deus, luz da vida, por ter-me dado os pais que tenho; responsáveis por mais essa etapa concluída. Dedico esta vitória a eles, Valdomiro e Gena, meus grandes amores, por terem dado a mim a oportunidade de cursar Educação Física e Enfermagem e, hoje, ter dois diplomas. Muito mais que me apoiarem nos estudos, agradeço pelo amor, dedicação, doação e compreensão. Por fazerem o possível para que meus sonhos se tornem realidade, pela nossa rotina, pelas irmãs que me deram, pela nossa família! Vocês são o meu tesouro, o meu exemplo de vida! Agora a Educadora Física é, também, Enfermeira! Obrigada. Muito obrigada!
Raquel Ribeiro




Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
 
Tá tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa

(Renato Russo - gravada por Cássia Eller)



 *Ontem, depois de quatros anos e meio  da minha colação em Educação Física, colei mais um grau. E, é claro, que isso também tinha que ser compartilhado aqui, no blog. Valeu, queridos colegas! Valeu, Izabela Hendrix e PUC! Valeu querida personalidade forte que me leva a nunca desistir  de vencer na vida! 

A FARPA (OU VAI BRINCAR DE SER FELIZ)



Era uma casa em reforma. Quando as casas passam por uma reforma é porque alguma coisa não está funcionando bem como antes, certo? Pode ser a tinta que já anda meio apagadinha ou a parede descascada. Pode ser o piso que ficou fora de moda. Pode ser porque a casa ficou pequena demais para caber as vidas que viviam nela. Mas essa história não é pra falar necessariamente da reforma. É pra falar da farpa da palha de aço, que se alojou no pé na menina que morava naquela casa. Todo mundo sabe que onde tem construção (ou reconstrução) tem palha de aço. Ela serve para dar acabamento em peças de madeira ou metal. Desconfio que ela tem mais utilidades. O certo é que uma farpa da tal palha tava ali, perdida no meio da bagunça e da poeira daquela reforma. A menina estava indo ao encontro das amigas que já se encontravam no quintal. Mas, no caminho até chegar as amiguinhas, a farpa fez dela sua vítima e se alojou no dedão do pé da pobrezinha. Como qualquer criança, ela fez um drama só! Aquela era a coisa mais grave, depois do tombo de bicicleta, que já tinha acontecido na sua vida. O pai já tinha logo a solução. “É só puxar a pontinha que a farpa sai.” Mas, a menina deu um jeito logo de ir  para de debaixo da sua cama. “Daqui, não saio. Daqui, ninguém me tira!” Fato era que ela só sentiu uma dorzinha quanto a farpa fez do seu pé moradia. Depois que ali já estava, não doía, incomodava. O medo da garotinha era sentir aquela dorzinha se o pai resolvesse tirar a farpa do seu dedão. Imagina...  Depois de algumas horas no chão frio e duro debaixo da cama, enfim, a garota resolveu deixar o pai fazer o serviço. E não é que não doeu, nada?!  Logo, ela foi brincar de ser feliz com as amigas.

Nossa vida está em constante reforma. Pode ser uma reforma da alma ou do guarda-roupa.As farpas podem ser as mágoas ou aquela roupa brega que você não se desfaz para dar lugar as novas. Mas, falo mesmo é das farpas que encontramos na nossa construção diária. Às vezes, deixamos que muitas farpas façam do nosso corpo moradia. Fato é que só sentimos dor quanto elas se alojam. Mas, por medo de doer mais ainda, as deixamos ali, nos incomodando todo dia. Tira logo essa farpa e vai brincar de ser feliz!

Raquel Ribeiro

Imagem:Weheartit

SAUDADE


saudade não se mede pelo tempo da ausência,
mas pela intensidade da presença.
no discurso amoroso, ela se esconde em letras e canções de uma determinada época.
aparece quando cruzo com alguém que usa o mesmo perfume.
habita pequenos fatos cotidianos, que geralmente passariam despercebidos,
mas com você faria todo sentido.
quando acomete, tem urgência. é o coração querendo retornar.
para lugares que talvez nem existam mais.
para planos que desistimos.
ou que desistiram da gente.
mas continuo elaborando novos planos
e crio mundos com minhas expectativas.
a saudade é a distância entre eu e como eu gostaria de estar.

Texto: Tiago Yonamine
Ilustração: Marina Faria
***
Feliz dia dos namorados!
Tem mais aqui.


ELE


Foi num dia de sol que Ele me apareceu pela primeira vez. Eu estava ali, sentada no jardim, vendo a vida passar. Ele não chegou muito perto e foi embora bem rápido. Acho que só queria dizer um “oi”. Estava vestido de amarelo - uma cor alegre, que simboliza energia, força e inovação. Tudo a ver com Ele! Depois desse dia, Ele passou a me visitar sempre.  Vem vestido com outros tons, mas amarelo parece ser sua cor predileta. Ele me visita em qualquer lugar. Estou andando na rua e adivinha quem me aparece? Ele. Estou dirigindo e Ele se “atreve” a entrar na frente do carro. Estou no trabalho e lá também está Ele. Estou rezando e ali também Ele está. Claro! Ele tem me visitado cada vez mais. Aonde quer que eu esteja Ele vai me encontrar.  Não tem um só dia que Ele não me aparece mais. Nunca chegou a me tocar. Não conversa, mas sei que Ele quer dizer: “Tudo vai dar certo!”. Às vezes, o vejo de longe ou entre as árvores do jardim. Outras, passa muito, muito perto; circula o meu corpo, finge que vai repousar sobre mim e some num piscar de olhos. Vai libertar outras almas. O importante é que, de uma certa forma, Ele nunca vai embora. Ele é Deus. Tenho visto borboletas...


Raquel Ribeiro


Imagem: Weheartit

PARA SEMPRE KATE


Kate era uma boxer. Nasceu em São Paulo e fez uma longa viagem até chegar aqui. Foi de avião até Belo Horizonte e de lá para Lagoa da Prata, veio de carro. Chegou numa manhã de sábado. No colo da minha irmã, adentrou pela porta da frente da nossa casa.  Ela era nosso terceiro boxer. Quando crianças, eu e minhas irmãs, tínhamos um exemplar macho da raça, chamado Saddam. Naquela época, me lembro que muitos cachorros tinham o nome do ditador.  Saddam morreu no jardim, vítima de um golpe que o vizinho lhe deu no peito, na tentativa de apartar uma briga entre os cães da rua. Desde o dia que ele se foi, tinha o desejo de ter outro boxer.  Nove anos depois , num dia de carnaval, vi um cão igual a ele na rua e, com minhas economias, comprei uma boxer chamada Shine.  Logo, Kate não era “filha única”.  Quando Kate chegou, sua companheira a esperava dentro de casa. Shine já era adulta e Kate, apenas um filhote que não tinha noção do seu tamanho. A pequenina então, logo já mostrou sua valentia, enfrentado a Shine. Kate  era uma pestinha! Pegava roupas no varal (principalmente as minhas), sapatos, lixo, lagarto e fazia de tudo comida. Não era daqueles cães que ficam quietinhos para você acariciar. Ela era muito estabanada! Pulava  a uma altura inacreditável. Pudera! Era filho de um campeão  de saltos. Lembro-me de uma de suas  fugas . Fiquei por mais de uma hora correndo atrás dela até que, por fim, ela teve a “bondade” de tomar o caminho de volta. Também me recordo do episódio em que ela assaltou o pacote de ração e o comeu  quase inteiro e só parou porque chegamos antes dela devorar tudo. Ficou com uma barriga gigante depois de tanta ração. Em seguida, vocês podem imaginar o que aconteceu, né?! Bem, Kate era muito levada até sua primeira crise de convulsões, que aconteceu numa noite de inverno. Foi um susto enorme! Conseguimos conter a crise após a administração de um medicamento. Depois desse dia, ela passou a tomar medicamentos diariamente. Começamos com um comprimido e por fim, ela já tomava quatro. Durante  anos, mesmo sendo medicada, Kate teve inúmeras crises. Após uma delas, ficou por dias deitada, mas, graças à Deus, conseguiu se levantar e se mover sozinha. Shine era quem nos avisava das crises. Começava a latir e não parava enquanto  não chegava alguém para socorrer a companheira.  Da última vez, Kate começou a ter convulsões a noite e só parou na manhã do dia seguinte, mesmo tendo sido medicada. Depois desse acontecimento, ela não  andou mais e nem se alimentou sozinha. Tinha esperança que ela voltasse ao normal.  Ela ficou uma semana deitada na sua casinha. Eu sempre entrava lá e mudava ela de posição, já que começaram a surgir escaras e eu queria que meu pai acreditasse que ela estava se mexendo, porém, o esforço foi em vão. A Kate sofria e nós sofríamos também. Ela estava indo embora. Então, chegou o dia que eu tive que abrir mão dela. A decisão de deixar ela partir era só minha. Todos da família concordavam em deixar ela ir, menos eu.  A esperança é a última que morre. Contudo, como o Marley do filme Marley e eu, Kate virou uma estrelinha numa manhã triste de setembro. Perder um cão é como perder um pedaço da gente. Quem já passou por isso, sabe do que estou falando. Enfim, Kate era  um dos seres mais valentes que conheci. Viveu por um longo tempo em meio a  medicamentos e crises convulsivas e, ainda assim, conseguia fazer festa sempre que brincávamos com ela.  Vou  lembrar para sempre dela. Para sempre, Kate!

Raquel Ribeiro

Imagem: arquivo pessoal

INFÂNCIA


Ontem fui a uma dessas lanchonetes de esquina e vi uma caixinha dessas, de lápis de chocolate, no balcão.
Nem sabia que elas ainda existiam. Tinha anos que eu não via uma dessa.
Ao ver essas caixinhas me lembrei o quanto era (ou é) bom ser criança.
Elas são "infância", assim como as moedas, cigarrinhos e sombrinhas de chocolate.

O que te faz lembrar os tempos  de  criança?