Bagagem


No mês de maio, embarquei junto com minha família para uma viagem à Fortaleza, no Ceará. Talvez nunca estivemos com tanta vontade de compartilhar momentos desde a nossa primeira viagem nesse ano, para comemorar o aniversário da minha mãe.
É incrível o que as viagens fazem com a gente! Você pode levar a maior mala do mundo que jamais ela caberá toda a bagagem na volta. Isso porque além das lembrancinhas das feiras de artesanato, dos quitutes regionais, você pode trazer o mar, a sensação de pisar na areia, a brisa batendo no seu rosto, centenas de pessoas que você nunca havia visto antes, a sensação de liberdade de andar de buggy nas areias. É impossível não voltar carregada de energia positiva. É impossível também não ficar curioso com as estórias que se cruzam nos aeroportos.
Viajar é se deixar ser invadido pelo mundo! É despir a alma para novas experiências. Nada é mais terapêutico do que viajar. Muitas vezes as pessoas viajam para se envolver nessa terapia fora da rotina para colocar as ideias no lugar. Se a intenção é essa, funciona! A gente sempre volta diferente do que fomos de uma viagem.
Fortaleza é o destino brasileiro mais longe que fui de Lagoa da Prata. Eu estava lá nos dias que mais notícias “bombas” sobre a política no Brasil estouravam. Dinheiro sujo que mais uma vez passavam pela lava jato.  Quantias de reais que parecem fantasias. Políticos eleitos por gente humilde, trabalhadora e que confiou em promessas vazias. Gente que tem tão pouco que fazer filhos para ganhar o benefício da Bolsa Família é considerado negócio lucrativo.
Visitando o nordeste, além de depararmos com as maravilhas da natureza, nos deparamos com crianças disputando resto de comida dos outros em restaurantes. Vemos crianças de dez anos vendendo balas às vinte e duas horas. Uma ainda me contou que não tem pai e que ele é quem sustenta a casa enquanto a mãe cuida dos filhos menores. Estuda de sete às onze horas e começa a trabalhar ao meio dia. O trabalho infantil é descarado no nordeste. Sei que também encontramos com ele por aqui. Mas lá, é quase uma regra. Enquanto discutem a reforma da previdência e não fazem nada por essas crianças, deveriam ao menos contabilizar o seu tempo de serviço! É ridículo, eu sei!
Essa é a parte triste da viagem. Não pode ser ruim porque sempre aprendo com essas vivências. Precisamos sempre agradecer as oportunidades que temos, seja a de conhecer o famoso Beach Park ou a oportunidade de ver como vivem os cearenses menos favorecidos.
Fato é que não se pode ter paz vendo criança jogada na rua, sendo arrimo de família e se alimentando de restos.
Na minha bagagem, trouxe tudo isso! E também trouxe aquela sensação de leveza que se tem quando você está em família.
Em cada viagem, seja ela fora ou dentro de mim, tenho mais certeza de que sou de carne e osso: humana!  Amo viajar. Amo ser só uma turista no meio da multidão, que me livra dos julgamentos rotineiros. Amo me dar à oportunidade de relaxar. Amo o concreto e o abstrato que trago na volta. Minha sugestão é que você viaje. Seja nas palavras dessa crônica, seja na música que você gosta, seja de carro ou de avião. Viaje e amplie a sua bagagem!
                                                                                                          
                                                                                                                            Raquel  Ribeiro


Estranhamente bem


Encontros e reencontros sempre vêm acompanhados de abraços, às vezes apertos de mão, às vezes de um beijo. Certo mesmo é sempre escutar a pergunta clássica: “Como você está?”. A minha resposta nos últimos tempos tem sido: “Estranhamente bem!” 
As pessoas, ao escutarem minha resposta nada convencional, me olham assustadas e me perguntam curiosas o que quero dizer com isso. 
Segue minha resposta:
Estranhamente bem é o estado máximo de bem estar que eu consegui atingir nos últimos dois anos e meio da minha vida. Nos últimos tempos, passei por transformações e momentos tão tristes que eu havia me esquecido completamente como era se sentir bem, em paz, livre, leve, solta e amada. É redescobrir seu amor próprio. É dançar balé na sala de pijama. É se sentir o ser mais importante do mundo quando o seu cachorro faz festa só porque você chegou em casa. É sorrir para as orquídeas. É fazer uma omelete, ela não se quebrar e por isso se achar a estrela da culinária. É receber os amigos em casa e serví-los com um belo prato preparado por você com amor e carinho. É comprar uma máquina de lavar e ficar radiante quando faz ela funcionar pela primeira vez igual a uma criança quando ganha um brinquedo. É perceber que sua família te adora e sempre vai estar ao seu lado. É sentir tranquilidade por ter tentado todas as possibilidades e sair leve de situações que não dependiam só de você para dar certo.É gostar dos seus próprios escritos. É descobrir que cozinhar também é uma forma de escrever. É voltar a ter criatividade. É entender que o tempo passa e que não podemos prorrogar os momentos felizes e nem os tristes. É amar a leitura, compreendendo que ela só nos acrescenta. É estar sempre aberto para o conhecimento. É cantar sua música preferida no chuveiro e achar que já pode se candidatar no TheVoice Brasil. É sentir o cheiro de amaciante nas roupas e achar esse o melhor perfume do mundo. É escutar samba enquanto faz almoço. É se reconhecer responsável pelas suas escolhas. É dar e receber “Bom dia!” de quem você nem conhece. É entender que seus pais se esforçaram para que você tenha uma vida digna, repleta de amor e respeito. É ganhar rosquinhas da sua aluna na hora exata que você sonhava em comer uma delícia dessas. É como saborear uma bola de sorvete de doce de leite e descobrir que esse é seu sabor preferido, após anos convencida que o sorvete de flocos era o melhor.É ter orgulho de você, da sua coragem, de escolher novos caminhos e acreditar que o que vem pela frente, mesmo sem ainda conhecer, será muito melhor. É ter fé!”
Todas essas situações e sentimentos bons acabaram de entrar na minha vida e acredito que por isso, no momento ainda são estranhos. É (quase) tudo uma novidade. Uma linda novidade!
Se sentir estranhamente bem é maravilhoso!
Mas e você, como está?

Raquel Ribeiro

Há esperança no mundo


   Há alguns anos atrás, eu morava em Belo Horizonte e cursava Enfermagem no Centro Universitário Izabela Hendrix. Era um sobe e desce morro e uma vida regada de leite e bolacha. A melhor hora do dia era o almoço. Ia em um restaurante na esquina do meu prédio e todos os dias eu me dava o direito de tomar um suco de laranja. Papai patrocinava meus estudos, minha moradia, minha alimentação, meus livros, meu xerox, minhas idas e vindas para Lagoa da Prata para visitar a família. É válido dizer que essa já era minha segunda graduação e que a minha única renda era da monitoria que eu dava na faculdade.
   Belo Horizonte é uma cidade de muitos rostos, muitos carros, muito movimento, muitas possiblidades, muito vai e vem. Mas sempre achei que faltam sorrisos, “bom dias”, entregas de almas. Conheci muita gente, algumas ainda mantenho contato. Porém, na minha lembrança, com frequência, vem à imagem de um senhor que eu sequer sei o nome e se ainda está vivo. Ele trabalhava com seu carrinho de pipocas na esquina do Centro Universitário, ali na  Rua da Bahia com Bias Fortes. Ele devia ter mais de 60, 70 anos talvez. Eu indo ou vindo ele sempre me dirigia um sorriso, um bom dia, perguntava como eu estava, como tinha sido o meu dia. No seu carrinho além das pipocas, tinha amêndoas carameladas e vários tipos de doces.  Meu dinheirinho era contado e, como já disse, a única gracinha que eu me permitia diariamente era tomar um suco de laranja, eu raramente comprava alguma guloseima desse senhor. Nem por isso ele deixou de me tratar com gentileza quando cruzávamos os nosso caminhos. 
   Desde que me entendo por gente, tenho um apreço por esses “vendedores de infância”. Os pipoqueiros, os vendedores de algodão doce, os vendedores de balas no trânsito, pelo rapaz que vende trufas de bar em bar na noite de nossa cidade (diga-se de passagem, ele já foi meu aluno). São pessoas que me trazem um sentimento bom, uma alegria na alma, uma esperança na humanidade. A gente escuta muito aquela história que o cheiro da pipoca é melhor que comer pipoca. Acredito que porque todas essas delícias trazem muito mais que sabor. São muito mais que um simples gosto doce ou salgado. Elas nos dão a chance de fazer uma ligação direta com nossos tempos de criança sem nem a gente comer a pipoca e só sentido o aroma.
   Outro dia mesmo, passeando com uma amiga sábado de manhã na Praça da Matriz, tinha um casal de pipoqueiros. Fui abduzida pelo cheiro e caminhei até eles. Eu estava completamente desprevenida, com só uma moeda de um real no bolso. Então, perguntei ao casal o valor do saquinho de pipocas. Respondendo que eram dois reais, eu perguntei se eles me vendiam meio. Eles disseram que sim, mas que me venderiam um saquinho cheio pelo o que eu tivesse para pagar. Achei de uma bondade! Fiquei tão surpresa com aquele gesto. Eles me entregaram a pipoca numa cara de satisfação de dar gosto! Confesso que fiquei constrangida com a situação e logo depois voltei com mais dinheiro para pagar e eles não aceitaram. O que me deixou com mais vergonha ainda! Hoje em dia é tão raro um ato de gentileza, que quando a gente recebe ficamos assim, constrangidos. Como se fosse ilícito dar ou receber delicadezas!
   Depois desse dia tive a certeza que os pipoqueiros e outros vendedores de guloseimas, se disfarçam de vendedores para nos trazer um pouco de boas lembranças, de alegria, de paz, de amor. Enquanto eles existirem, há de se ter esperança no mundo!
Se você ler esse texto e passar na esquina do Izabela Hendrix em BH, por favor, repare se o senhor ainda está lá com seu carrinho e não deixe de me contar.
Carinhosamente, 
Raquel Ribeiro.

Não me perca à vista


Um dia desses, um amigo me perguntou o que eu queria ser. E eu respondi que eu queria continuar desenvolvendo meu trabalho. Não satisfeito com minha resposta ele repetiu a pergunta enfaticamente: “Raquel, o que você quer ser?”. Então no meio tempo entre a pergunta e a resposta, lembrei-me da minha sobrinha de seis anos, que estuda numa das melhores escolas de São Paulo, me confessando que sonhava em ser cabeleireira. Logo, da confissão inocente de uma criança, veio a minha resposta ao meu amigo: “Quero ser escritora!”. E ele, um carinha persistente me perguntou o que estava fazendo para que isso acontecesse. Eu diante, de tanta insistência, o contei que escrevia num blog.
Naquele momento, porém, não tive coragem de dizê-lo que não publicava um texto há mais de três anos. Nem no blog e nem aqui, no jornal a qual retorno agora. Então, incomoda pela pergunta dirigida a mim por esse filho de Deus e encorajada pela fala da minha antiga leitora Dirce, funcionária da escola particular em que eu cursei o Ensino Médio e que um dia me disse que gostava dos meus textos, publicados aqui, cá está, no estilo “filho pródigo”.
Sem vergonha de dizer, somente aos trinta e dois anos de idade, acredito que começo a entender a cura da cegueira nos contada na Bíblia Sagrada além da questão física.
Nos últimos tempos, após alguns encontros psicanalíticos, comecei a ter visão do quanto realmente conseguimos enxergar ou o quanto nos permitimos. As últimas notícias do jornal só falavam do voo da Chapecoense. Enquanto se falava das possíveis causas do acidente, de comentários inúteis e mesquinhos como: “Essa manchete toda é só porque são jogadores de futebol!”, eu tentava desviar do assunto. Logo os corpos chegaram a Chapecó, sob uma tempestade digna do tamanho da tragédia, eu passava pela sala de TV enquanto meu amigo. assistia a transmissão diretamente da Arena Condá. Naqueles cinco segundos em que passei por ali, fui acometida pela cena que revelou porque eu fugia daquele “Papo Chapecó”. Era um menino, que deve ter uns dez anos, uniformizado de esperança, debruçado sobre o caixão do pai. Recordei-me instantaneamente do velório do meu pai, em que eu também posta de bruços sobre a sua ausência, sentia todo o peso do mundo em minhas costas ao mesmo tempo em que não sentia meus pés no chão. Aquele, então foi meu ponto de encontro com aquela tragédia, o momento em que me permiti enxergar um pouco mais. Nos dias seguintes, fui abatida por uma sensação desesperadora regada a lágrimas e soluços, pela presença da ausência do meu pai e, por pensamentos recorrentes que aquele garoto, no auge da sua inocência, se encontrava agora comigo.
Continuando ainda sobre a cegueira, me lembro de um ex-aluno, que deve ter hoje a mesma idade do garoto Chapecoense,que no primeiro dia de aula de uma escola que já lecionei, interrompeu a minha dinâmica de apresentação, saindo do seu lugar e indo até o meu encontro, para me dizer bem baixinho: “Tia, minha mãe morreu.”  E eu o respondi, da mesma forma: “ O meu pai também.” Desde então, nunca mais nos perdemos de vista.
O que peço a Deus, caro leitor, é que Deus nos ajude a enxergar.  Permitir-nos ver o outro, encontrá-lo e assim descortinar a nós mesmos. Sem julgamentos. Sendo gente. Permitindo-nos ser gente.
Termino com José Saramago, citando um trecho da sua obra: “È necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não nos saímos de nós.”

Carinhosamente, Raquel Ribeiro.

DOCE

Há tempos não escrevia por aqui. Sinto saudades, mas a minha bursite tem me afastado do computador. Mas um dia eu volto. Um dia eu volto de verdade. Doce saudade do DOCE...

O TEMPO QUE NÃO CABIA NO TEMPO


Queria saber sobre as coisas que não passam. Queria saber porque nem tudo acompanhava o tic-tac do relógio. E, ainda, porque éramos todos tão apegados aos números que, supostamente, definiam o tempo. Era só uma menina que queria saber mais. Saber mais sobre o mundo.  Não entendia porque o ontem tinha cara de ano passado. Não entendia o porquê do anteontem ter cara de momento exato. E foi então que, numa das suas viagens mirabolantes na sua sala de cinema preferida, que ela começou a entender o calendário. O homem é um ser espertinho e que adora números, mas que tem a terrível mania de querer controlar tudo. Foi daí que nasceu o tic-tac. O espertinho queria que tudo passasse. Que nome devia se dar para o que o relógio não controla? Não sabia o que era. Só sabia que não era esquecimento. Seria a magia do tempo? A magia das coisas que não passam. Era o tempo que não tinha medida e não podia ser contado. Só podia ser sentido. Nem sempre era saudade. Às vezes, era um sentimento doído, que os ponteiros, também se esqueceram de levar. Às vezes aquele sentimento tinha gosto de pé-de-moleque e cheiro de bolo saindo do forno. O tempo que não passa era como filme na sessão da tarde. Quantas reprises? O tempo que não passa era o álbum de fotografia que tem toque. Era a fotografia que saia do papel e dançava valsa ou hip hop. Acendia aquela fogueira no peito. Relógio sem ponteiros. Tic sem tac. Passado repassado. Terra do Nunca. Khorons e Kairós. E quando se vê, já é meio dia. Mas nada era meia vida. Vida revivida, concluiu a menina.

Raquel Ribeiro

VAMOS VOLTAR A SER GENTE



“Fui criado com princípios morais comuns:
Quando eu era pequeno, mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos, eram autoridades dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder de forma mal educada aos mais velhos, professores ou autoridades… Confiávamos nos adultos porque todos eram pais, mães ou familiares das crianças da nossa rua, do bairro, ou da cidade… Tínhamos medo apenas do escuro, dos sapos, dos filmes de terror… Hoje me deu uma tristeza infinita por tudo aquilo que perdemos. Por tudo o que meus netos um dia enfrentarão.
Pelo medo no olhar das crianças, dos jovens, dos velhos e dos adultos. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem em tudo significa ser idiota. Pagar dívidas em dia é ser tonto… Anistia para corruptos e sonegadores… O que aconteceu conosco? Professores maltratados nas salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas janelas e portas. Que valores são esses? Automóveis que valem mais que abraços, filhas querendo uma cirurgia como presente por passar de ano. Celulares nas mochilas de crianças. O que vais querer em troca de um abraço? A diversão vale mais que um diploma. Uma tela gigante vale mais que uma boa conversa. Mais vale uma maquiagem que um sorvete. Mais vale parecer do que ser… Quando foi que tudo desapareceu ou se tornou ridículo?
Quero arrancar as grades da minha janela para poder tocar as flores! Quero me sentar na varanda e dormir com a porta aberta nas noites de verão! Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a vergonha na cara e a solidariedade. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olhar olho-no-olho. Quero a esperança, a alegria, a confiança! Quero calar a boca de quem diz: “temos que estar ao nível de…”, ao falar de uma pessoa. Abaixo o “TER”, viva o “SER”. E viva o retorno da verdadeira vida, simples como a chuva, limpa como um céu de primavera, leve como a brisa da manhã!
E definitivamente bela, como cada amanhecer. Quero ter de volta o meu mundo simples e comum. Onde existam amor, solidariedade e fraternidade como bases. Vamos voltar a ser “gente”. Construir um mundo melhor, mais justo, mais humano, onde as pessoas respeitem as pessoas. Utopia? Quem sabe?… Precisamos tentar… Quem sabe comecemos a caminhar transmitindo essa mensagem… Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecerão!”.

Arnaldo Jabor

CRÔNICA DA LOUCURA



O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que  cuida do louco : o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. 

Durante
 
quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. 

O melhor da terapia é
 
chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. 

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. 

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "
consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: 

Na última quarta-feira, estávamos:
 
1. Eu
 
2.
 Um crioulinho muito bem vestido, 
3. Um
 senhor de uns cinqüenta anos e 
4.
 
Uma velha gorda. 

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali,
 
tão cabisbaixos e ensimesmados.

(2) O
 pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime . Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba "? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça . Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina. 

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo.Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa . Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não.Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles . Tingido. 

(4) Mas a melhor,
 
a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora?Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava na quinta dezena em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. 

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. 

Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
 

Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:
 

- O Ditinho é o nosso office-boy.
 

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
 

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
 

- "E você, não vai ter alta tão cedo..."


Luís Fernando Veríssimo

Imagem: Weheartit

EU MAIOR



Entrevista com Rubem Alves no filme EU MAIOR, que ainda está em fase de produção. m
e
EU MAIOR traz uma reflexão contemporânea sobre autoconhecimento e busca da felicidade, por meio de entrevistas com expoentes de diferentes áreas, incluindo líderes espirituais, intelectuais, artistas e esportistas.  Um filme sobre questões essenciais e universais, numa época de grandes transformações e desafios, que pedem níveis mais altos de discernimento e consciência individual.eiência individual.

Quer saber mais sofre o filme e assistir a outras entrevistas? Clique aqui.

O ANJO MAIS VELHO




"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"



Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar


(NÃO É) INVERNO



Saio de casa e encontro o sol. Uma claridade tão forte que mal consigo abrir os olhos. Faz calor. É estranho. Aqui dentro neva e o inverno parece ter se alojado no meu peito. Não quer ir embora. Faz frio. Volto pra casa. Não temos lareira em casa. Ou temos? Temos. Dizem que o inverno é chique. Tudo é muito mais glamoroso que nas  outras vidas do ano. Quando faz frio a alma fica mais glamorosa, entende? Tudo vem daqui e esse é o único lado bom das baixas temperaturas. Para aquecer, me perco na literatura e viajo pelas quatro estações. Agora sinto uma brisa suave, acariciando meu rosto. Tudo começa a ter gosto de chocolate quente. É inverno, mas agora faz frio lá fora. Só lá. Minha alma vive em plena primavera. O inverno foi bem curto. Tão curto quanto esse texto. É primavera. E aqui dentro tudo tem muita cor. Tem gosto bom, tem toque bom, tem cheiro bom. Primavera...

Raquel Ribeiro


Minha amiga de infância, Vanessa Vasconcelos, que tem uma  alma tão contagiante que nos toca, me pediu para escrever sobre o inverno. Logo ela, que é calor, que é cor, entende?! Uma amiga que é primavera, que é verão.  O inverno que nunca é pra você, amiga. O texto é pra você! Metáforas, contradições...