QUANDO O AMOR ACABA




O poeta Fernando Pessoa, em uma de suas poesias, demonstrou a sua perplexidade ante uma questão vital: “Para onde vai o amor, quando o amor acaba?” Para onde vai o amor, quando o amor vai embora? inúmeros outros poetas tentaram em vão responder ao questionamento: para onde vai o amor, quando o amor acaba? Em sua maioria os poetas falam do fim do amor; do fim do relacionamento amoroso, seja pela traição, pela morte, pela indiferença, pela distância. Mas, se acabou, para onde foi o amor? Esta é a dúvida que os atormenta e também a nós, pobres mortais.
O poeta maior da língua portuguesa, Luiz Vaz de Camões, revela sua tristeza e solitude, com a morte de sua amada Dinamene, no, talvez, mais importante e famoso soneto escrito em língua portuguesa: “Alma minha gentil que te partiste/ Tão cedo desta vida descontente/ Repousa lá no céu, eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste”. O amor foi embora. Para onde?
Machado de Assis despede-se de sua amada Carolina, em seu túmulo, com um poema: “Querida, aos pés do leito derradeiro/ Em que descansas desta longa vida,/ Aqui venho e virei, pobre querida,/ Trazer-te o coração do companheiro”. É o poeta voltando ao túmulo  da amada, à procura do amor que se foi.
Olavo Bilac, no soneto, Nel Mezzo Del Camin, vê exatamente o momento em que o amor vai embora e sofre com isso: “...Hoje segues de novo... Na partida/ Nem o pranto os teus olhos umedece,/ Nem te comove a dor da despedida.// E eu, solitário, volto a face, e tremo/ vendo teu vulto que desaparece/ Na extrema curva do caminho extremo”. Mais uma vez o amor escapa e o poeta não sabe como segurá-lo.
Carlos Drummond de Andrade cobra do amigo, Manuel Bandeira, que se foi (para a eternidade) sem se despedir: “Tenho razão de sentir saudade,/tenho razão de te acusar./ Houve um pacto implícito que rompeste,/  e sem despedires foste embora.../ ...Nem deixaste sequer o direito de indagar/ por que o fizeste, por que te foste?.” Os amigos são assim, às vezes vão embora e não nos dão tempo de despedir.
“Vou-me embora pra Pasárgada,/ Lá, sou amigo do rei,/ lá tenho a mulher que quero,/ na cama que escolherei”. Assim o esperançoso poeta Manuel Bandeira diz que vai para a imaginária Pasárgada. Terra de encantamento e alegria. No entanto, o taciturno poeta chora a ausência do amor do filho que não teve: “Gosto muito de criança:/ não tive filho de meu./ Um filho!...não foi de jeito.../ Mas trago dentro do peito,/ Meu filho que não nasceu”.
Vinícius de Moraes termina seu soneto mais importante e conhecido, Soneto da Fidelidade, com a quase certeza de que o amor acaba: “E assim, quando mais tarde me procure/ Quem sabe, a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama,// Eu possa me dizer do amor (que tive)/ Que não seja imortal, posto que é chama,/ Mas que seja infinito, enquanto dure”. É a esperança de segurar o amor, depois que o amor se acaba.
O poeta gaúcho Mario Quintana desdenha da mulher amada, pelo fim do amor. Mesmo assim não consegue esquecê-la: “E agora – que desfecho!/ Já nem penso mais em ti.../Mas será que nunca deixo/ De lembrar que te esqueci?
Esses pensamentos vieram-me à noite, depois de um passeio que fiz  a um sítio de um amigo. Lá encontrei pessoas queridas e conheci outras. Dentre essas uma me impressionou pelas lembranças da pessoa amada. Muitos, muitos anos se passaram; talvez quarenta e a saudade e as lembranças permanecem vívidas em seu coração: “namoramos cinco anos, seis meses e nove dias”. Disse-me essa criatura. O amor foi embora, para onde, se ele permanece límpido na contagem do tempo, na distância, e na saudade? Faltou dizer-me apenas as horas que antecederam ao fim do amor.
Uma criança, vítima de câncer terminal, preocupada com a mãe que ficaria sozinha disse-lhe: “A saudade é o amor que fica”. Não temo em dar esta reposta ao poeta Fernando Pessoa e, sem fazer trocadilho, a essa pessoa que conheci no sítio do meu amigo: A saudade é o amor que ficou.


Toninho Sampaio


* Bem, hoje quem escreveu o texto não fui eu. Foi o meu querido Toninho Sampaio, que além do cargo de meu padrinho, é também professor e escritor. Achei incrível a forma como ele fez a conexão entre diversos textos e como ele respondeu Fernando Pessoa. O que você achou?

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